O Projeto

por Beatriz Furtado 
Plano é a unidade mínima de espaço/tempo cinematográfico. Desde o seu surgimento, o cinema
tem o plano como um desafio. Fazer cinema, pensar cinema se faz em planos e na sequência
deles. A resposta à pergunta sobre o fazer cinema é, sobretudo, do ponto de vista estético e de
política da imagem, o da definição de como filmar um plano. O plano forma um bloco de espaço e
tempo. Define a continuidade espacial- através das escalas do plano– assim como a continuidade
temporal – pela sua duração. O plano estabelece ainda o quadro e o campo cinematográfico.
São os planos que, em última análise, definem a estética do filme e, por conseguinte, se
colocam como uma questão fundamental da política da imagem. Uma estética do campo, que trata
sobre a profundidade, a mise en scene e a construção dramática do plano. E uma estética do
quadro, que implica no tipo de enquadramento e composição, as proximidades- close, close up,
paisagens, luz, movimentos, campo e fora de campo, etc.
Do ponto de vista das teorias do cinema, é possível pensar um percurso dos debates sobre as
cinematografias a partir de um estudo dos planos. Desde as concepções e debates dos anos 1920,
passando por noções oriundas das teorias do Plano Próximo, de Serguei Eisensten, às concepções
modernas do plano, dos anos 1970 e 1980, em especial nas obras “Imagem-Tempo”e
“Imagem-Movimento”, de Gilles Deleuze. Desde os estudos de plano de cineastas como Alain
Resnais e Robert Bresson às contribuições de D.W. Griffith, Fritz Lang, Dreyer e ainda de
Eisenstein para a expressividade das formas, até os usos dos grandes planos do cinema clássico,
em especial em Alfred Hitchcook, assim como a recorrência dos planos de detalhes no cinema de
Sérgio Leone. Todo o embate teórico do cinema que se faz atravessado pelo problema do plano,
valendo ressaltar ainda às abordagens que fazem parte do campo do pictórico nas artes.
Fazer um Plano é escolher o que aparece na imagem que se constroi. Mas esta operação, que
pode parecer um problema meramente técnico – escolhas de tipos de lentes, de luz, de
composição, de movimento, etc, – é a própria delimitação do espaço cinematográfico, é o que
constitui a experiência visual. Trata-se de uma questão técnica, estética e de política da imagem.
Assim sendo, a pergunta central que perpassa essa proposta de pesquisa se faz na medida
mesma da importância do Plano como elemento que define a produção contemporânea, como o
cinema ver e faz parte do mundo. A pesquisa quer saber/responder com quais Planos se faz é o
Cinema Contemporâneo.
Como o cinema contemporâneo recorta o espaço? Como cria profundidade ou bidimensionaliza o
campo no Plano? O que o Plano deixa fora de campo? Como o Plano aponta para um ponto de
vista no cinema? Qual o tamanho, a escala e a composição que predomina no cinema
contemporâneo? Como o Plano compõe uma vertente estética da imagem cinematográfica? Com
que dados é possível apontar o Plano é como definidor de uma estética do cinema
contemporâneo?
Nossa hipótese é que o Plano é um problema fundamental para definir as vertentes
contemporâneas do cinema. Trata-se, para cada realizador/cineasta, de definir através do Plano, a
forma fílmica capaz de traduzir esteticamente um modo de fazer cinema. O Plano define o quadro,
impõe seus limites e torna visível uma parte do mundo assim como o que deverá ficar fora, não
visível ou apenas sugerido.
Essa definição é muito menos uma negociação técnica que uma escolha de valor, de estética e
de política da imagem. A definição do Plano, o que se encontra próximo e o que se encontra
distante, o que fica dentro do campo visual e o que do mundo contínuo fica apartado visualmente
da imagem, é sobretudo uma questão da fundação de um modo de ver cinematográfico, onde
posiciona não apenas os elementos que compõem a cena, seus objetos e personagens, mas o
próprio lugar do espectador.
Nesse sentido, o mapeamento dos Planos na produção do cinema contemporâneo deverá
apontar para uma tipologia dos modos cinematográficos de recortar o espaço e de constituir sua
própria estética.
Tal hipótese se baseia na própria história do cinema, quando os movimentos do cinema
moderno, por exemplo, rompeu com o modelo clássico de executar seus planos, de constituir os
seus espaços- caso de Antonioni, Godard, Bresson, etc., criando todo um novo pensamento sobre
Plano em seus filmes. Antonioni, por exemplo, investiu na pesquisa por recuperar o mistério das
imagens do cinema das origens, sobretudo dos Irmãos Lumière, com a criação de Planos incertos,
abertos, em que o espectador se encontra não mais no centro mas na periferia do Plano.